D Angrelina é uma transmontana das antigas. Ajudou a criar alguns dos socalcos que curvam a Serra do Marão. A pobreza, a fome e a falta de futuro fizeram com que recém-casada migrasse para Lisboa à procura de vida melhor. Sete filhos depois enviuvou.
A sua saúde era de ferro! Nada a abalava. Até que uma coluna castigada a obrigou a tomar comprimidos para as dores. O médico de familia enviou-a para um especialista que a queria operar. Angrelina não foi nessa, aos oitentas sabia que com madeira com caruncho é dificil fazer fôrma. Surprendeu-se quando o médico (demasiado novo) a cumprimentou com um "então Patrícia como vai?". Achou-o um pouco abusado, mas lembrou-se da forma de falar dos netos e voltou a pensar que a culpa era de tanta televisão e do 25 de Abril. Na segunda consulta de novo a insistência no "Patrícia". Pensou que problema teria esse rapaz recusando-se a tratá-la pelo nome de baptismo. Angrelina não será o nome mais bonito de mundo, mas é nome cristão. À terceira não resistiu, corada pela indignação levantou-se e foi directa ao assunto:
"Dr, o meu nome é Angrelina, porque insiste em chamar-me Patrícia?"
A vergonha da explicação fez esquecer as dores...
Conhecia bem a família do médico, vizinhas na mesma aldeia. E lembrava-se bem da ajuda que em tempos de fome fora prestada pela própria avó do menino Henrique, agora doutorzinho em Lisboa.
Nunca mais regressou à consulta. A vergonha de encarar o seu ...patrício, não a deixava. Em silêncio, continuou a tomar as pílulas para as dores, até que o cansaço sobreveio... A anemia que se instalou após uma hemorragia surgida do nada, motivou um internamento urgente .
O relatório de alta foi (como sempre) seco e impessoal; úlcera gástrica provocada pela automedicação com anti-inflamatórios. Não espelhava a humilhação que D Angrelina sofrera ao ser confrontada com a sua ignorância.
Felizmente hoje quase não há D. Angrelinas. Existirá muita ignorância, mas não porque as pessoas não podem, apenas porque não querem. Acham que com a ajuda de um tal de Magalhães... ??
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