domingo, 22 de novembro de 2009

O poder da almofada



Existem almofadas para todos os gostos. De fibra, de penas, de espuma, ergonómicas, anti-ácaros, anti-stress. De tamanhos diversos: baixinhas para quem dorme de barriga para baixo, médias para quem dorme de lado, altas para quem dorme de barriga para cima. É dos utensílios mais personalizados; molda-se à nossa forma de dormir e é um espelho da nossa forma de estar. É impossível oferecer uma almofada a alguém; a escolha é demasiado pessoal e complicada. Em Espanha a norma são os travesseiros; sempre os detestei. No meu hospital as almofadas são enormes e de plástico; parecem autênticos blocos, prontos a aumentar o martírio de quem não tem direito de escolha.

Quando era um jovem interno, nos tempos em que os chefes ainda descansavam umas horas, calhava-me sempre o turno das horas mortas. O movimento da urgência à noite parecia muito menor do que o actual. Ainda se apagavam as luzes dos balcões e aproveitávamos para relaxar.

Uma noite tinha internado um filho de um colega mais velho, com tentativa de suicídio após ter ingerido vários medicamentos. O coctail utilizado, diverso e abundante, fazia com que apenas respondesse provisoriamente aos antídotos habituais. Estava profundamente sedado e o receio era que se agravasse a dificuldade respiratória que exibia. Em grande parte esta devia-se à flacidez dos músculos da base da língua, condicionando a queda desta e a obstrução das vias aéreas.

Que fazer? Acordar o chefe e reconhecer a ignorância? O pânico era que houvesse uma paragem respiratória e o tivesse de entubar, num momento sem margem para erro. Revia mentalmente os esquemas terapêuticos a ver se não falhava nada; talvez uma perfusão de outro broncodilatador... ou de qualquer coisa que o acordasse...

Por acaso apareceu uma colega mais velha que vinha observar outro doente. Pedi-lhe ajuda, mas ela apenas ficou estática, especada a olhar para o doente durante minutos que pareciam intermináveis. Devia estar a contar os ciclos respiratórios ou a ver algum sinal estranho que me escapava. O doente jazia deitado de costas (em decúbito dorsal dizemos), apenas reactivo à dor, respirando com a ajuda de oxigénio suplementar por máscara.
Quando já estava a pensar que não tinha valido a pena pedir ajuda àquela inútil, ela mexeu-se. Dirigiu-se a uma auxiliar e pediu-lhe uma almofada. Colocou-a debaixo da cabeça do doente de maneira a que a cabeça fica-se flectida sobro o tronco, quase a 90 graus. Desse modo disse-me, diminuia a possibilidade de haver obstrução da via aérea porque a língua era empurrada para a frente. O rapaz dormiu serenamente toda a noite e de manhã, já desperto, arrependia-se de um acto idiota e impulsivo realizado por um motivo de que já nem me lembro, ( mas seguramente por culpa de uma mulher qualquer).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ponto de fuga



Infelizmente os conhecimentos vêm muitas vezes avulso, de forma desordenada e a espaços cada vez mais prolongados, que o tempo corre rápido. Num desses momentos aproveitava para ler algo nos livros da Taschen que em tempos acompanhavam o Público.

Um dos autores era um pintor/arquitecto/ecologista/faz-tudo austríaco que insistia em colocar a natureza, com as suas cores e as suas curvas nos edifícios que desenhava (o quadrado não é uma invenção da natureza mas do homem). Nos seus prédios, os terraços estão cobertos de vegetação frondosa e as janelas são todas diferentes conferindo individualidade a quem espreita por detrás das vidraças.

Chamava-se Hundertwasser e não deixa ninguém indiferente. Também marcou o António que na época (teria 9 ou 10 anos) aprendia a desenhar o ponto de fuga, aquele ponto, que por ilusão de óptica, faz com que duas linhas paralelas se pareçam unir à distância.

O que não sabem o Hundertwasser e o António é que depois dos 40 é que o ponto de fuga fica cada vez menos distante. Mas essa já não é uma ilusão de óptica, apenas uma óptica iludida por pensar que os quarenta eram apenas a idade da ternura, como enganava o outro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Surpresa em Monza


Tive a oportunidade de visitar Monza e como não podia deixar de ser fui ver a catedral. A visita decorreu de noite, acompanhando um guia local o que permitiu que um pequeno grupo tivéssemos acesso à Igreja, num ambiente sombrio e marcante. Não esperava muito da visita. Tinha comprado um guia de viagem sobre a zona de Milão e os grandes Lagos, e sobre Monza nem uma palavra. O guia era um desses lombardos com dois metros de altura exagerando a descrição da sua cidade e as suas ascendências bárbaras.
Depois de recorrer a nave central, levou-nos a uma pequena sala coberta de andaimes, usados para a recuperação de frescos na parede. Estacou junto a uma pequena vitrine, apontou para uma peça solitária e anunciou: estão perante a mais importante coroa da Europa. Tá bem tá...
A coroa, mais apropriada para uma criança, apesar de cravejada de pedras preciosas, não assombrava ninguém . Consistia numa série de folhas de ouro apensas a uma estrutura de ferro fundido, dobrado em forma de semi-círculo.
Só que... Essa peça de metal fora oferecida por Santa Helena a Constantino, o primeiro imperador romano convertido ao catolicismo. O ferro pertenceu a um dos cravos da Cruz de Cristo. A coroa foi usada por Carlos Magno... por Carlos V de Espanha...por...

Napoleão quando se proclamou Rei de Itália, não permitiu que fosse o papa a tomar a coroa nas mãos e o coroasse. Repetiria a afronta à Igreja na sua coroação em Notre-Dame como imperador de França. Declarou Dieu me la donne, gare à qui la touche. Em Itália, era a coroa da Lombardia que tinha nas mãos...

sábado, 17 de outubro de 2009

Humor à moda de Bratislava






















Estive de fugida em Bratislava. Diziam que pouco havia que ver. Uma cidade que esteve quase sempre sob o jugo de outros, longe da riqueza de Praga, Viena ou Budapeste.

Cláudio Magris em Danúbio cita o escritor eslovaco Minac que em 1968 publicou o livro Onde estão os Nossos Castelos. Não temos história, diz Minac, quando esta última é feita só de reis, imperadores, duques, principes, vitórias, conquistas, violências, rapinas.

Parece que os castelos espalhados pela pequena Eslováquia fazem parte de outra história desse país, alheia ao povo eslovaco. De facto eram os senhores húngaros que viviam nos castelos e nas casas senhoriais enquanto os eslovacos, proibidos de estudar e falar o seu idioma viviam em choupanas ou casas de madeira simples. Diz Magris que "durante séculos os Eslovacos foram um povo ignorado, o tecido e o substrato obscuro do seu próprio país".

Mas agora Bratislava é uma terra em ebulição. Afastados os comunistas os eslovacos tentam por fim decidir o seu destino sozinhos. A cidade reflecte bem o passado de conflito e domínio sucessivo extrangeiro que sofreu. E isso confere-lhe História. Carregada de contrastes, a cidade tem no seu centro várias estátuas em que o humor transparece. Na fase de reconstrução após a última guerra, o presidente da câmara pediu a artistas que criassem obras optimistas, em que o humor estivesse presente. O trabalhador que repousa espreitando desde os esgotos é um exemplo de como a arte pode mudar o estado de alma de uma cidade.

Favismo, o primo P. e o Dr Costa Santos


Um primo nosso tem uma doença estranha; um pouco mais novo que eu, estava proibido de comer favas e ervilhas porque (diziam-nos) era alérgico. Teria eu uns dez anos quando me apercebi desse mistério. É claro que junto com os meus irmãos tinhamos o requinte de lhe cometer algumas confidências durante as refeições que com frequência partilhávamos. A sopa mesmo que fosse canja, sabia sempre a ervilhas ou jurávamos que a empregada não gostava dele e tinha misturado feijões de propósito. O almoço acabava com o primo a chorar e eu com uma bofetada ou de castigo merecido, que isto de ser o mais velho serve sempre de bode expiatório.



Há dois ou três meses apareceu já de madrugada um jovem brasileiro na urgência do hospital, muito prostrado e amarelo. Como o tom de pele não ajudava no diagnóstico de icterícia foi triado como tendo problemas oftalmológicos devido ao profundo amarelo dos olhos. As análises confirmavam contudo níveis de bilirrubina 14 vezes superiores ao normal e uma anemia aguda, embora ligeira. Após se descartarem várias hipóteses, a pista correcta residia no prato de favas comido ao jantar, um petisco desconhecido até então para o doente, já que na zona onde residia no Brasil não existem favas.


Em Portugal esta doença comhecida popularmente como favismo é rara; ocorre em menos de 0,5% da população. Apesar disso foi entre nós que surgiu a primeira publicação mundial sobre o tema.

Em 1843, era publicado numa pequena revista médica um pequeno comentário, que relatava a visita de um médico a uma quintarola em Cuba no Alentejo. Por lá existia um abegão (pastor) que insistia em comer favas contrariando as ordens da patroa. Esta sabia que ele ficaria prostrado e incapaz de trabalhar nos dias seguintes. Mas a gula era mais forte e o pastor lá comeu algumas ("poucas") favas só para ganhar o gosto. Dito e feito lá surgiu a prostração, tez amarella e muita indisposição requerendo muito descanso e água bebida com fartura. Uma semana depois estava como novo.

Tratámos o nosso inconsolável brasileiro da mesma maneira; com sopas (ou melhor água) e descanso. E não é que uma semana depois também estava como novo... Pudémos então dosear níveis muito baixos do enzima glicose-6-fostato-desidrogenase, confirmando o diagnóstico o que ajudará o doente mas também o seu fillho a evitar determinados medicamentos e petiscos.

Mas as curiosidades da história não terminam aqui. Decidimos apresentar este caso na reunião de serviço da última sexta-feira. Na preparação da discussão lembrei-me do primo Paulo e da sua intolerância às ervilhas. Recordava-me que um antigo mestre já reformado me contara que havia uma denominação especifica para a intolerância a este alimento. Na quinta feira ao fim da tarde liguei-lhe; o termo disse-me, era piselismo...

Agradecido, fui googlar a ver o que encontrava sobre piselismo.Estranhamente zero. Nada de nada. Tentei variantes pisilismo, pesilismo.... e nada...

Disse-me então esse amigo que encontraria o termo correcto numa edição do livro de Hematologia publicado pela Gulbenkian nos anos 70. Há mais de trinta anos, portanto.

Na sexta feira antes da sessão fui dar uma espreitadela no calhamaço. E lá estava: existe uma variante da anemia hemolítica semelhante ao favismo mas despoletada pelas ervilhas; denomina-se a doença... piselismo.

Dr Costa Santos 1 - Google zero...

sábado, 10 de outubro de 2009

Viena




O país
Foi sede de um grande império...
Foi invadido por mouros e godos... e até já foi dominado pelos espanhóis...
Os estrangeiros não conhecem marcas próprias do país...
Depende muito da economia do vizinho do lado
A selecção de futebol anda pelas ruas da amargura

A cidade
Repleta de história e monumentos
Um rio fantástico
Uma música que marca a imagem da cidade
Sempre em obras

Muitas semelhanças connosco.




domingo, 4 de outubro de 2009

A Vénus de Willendorf



Quando miúdo sonhava por vezes acordar num mundo primitivo rodeado de perigosos tigres de dentes de sabre, mamutes e afins. As mulheres primitivas com as quais acabava por ter sempre sucesso, inspiravam-se na figura da Raquel Welch no filme dos anos 60, One Million Years BC, que aliás não ficou para a história.

Na semana passada estive em Viena. Num escuro recanto do Museu de História Natural encontra-se uma pequena estatueta. Nas informações disponíveis salienta-se que será provavelmente a única mulher com um indíce de massa corporal acima de 50 que é admirada em todo o mundo (hoje em dia considerar-se-ia como obesidade mórbida). Para esse indíce conta muito a sua estatura; apenas 11 cm! .

A estatueta foi encontrada nas obras de construção de caminho de ferro na região de Willendorf na Áustria em e estima-se que tenha cerca de 25000 anos.

O facto nessa região se terem encontrado outros achados paleolíticos fez com que o museu de História Natural enviasse peritos para controlar o decorrer das obras. Isto em 1908...

Quando um trabalhador encontrou no leito de um rio uma figura com contornos vagamente familiares mostrou-o ao perito (Josef Szombathy) que desvalorizou o achado dizendo tratar-se apenas de uma pedra com forma humana, mas que apesar de tudo tinha um interesse relativo e ficariam com ela. A figura corada de ocre vermelho era de pedra calcárea ausente na zona e Szombathy rapidamente se apercebeu de que estava perante uma descoberta que podia mudar o seu futuro. Pediu um aumento de ordenado de cerca de 10 vezes o que ganhava e então cedeu a estátua ao museu.

A Vénus de Willendorf poderá ter sido um amuleto, usado como símbolo da fertilidade... Ficou na história. Temo é que daqui a mil anos ninguém se lembre da Raquel Welch.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Noite de urgência 2




À noite tive um sonho incómodo onde se representavam umas escadas de pedra; do cimo delas, eu fazia um sinal imperceptível de despedida a alguém que se afastava em baixo. Atravessei portas que se abriam e fechavam à minha passagem sem lhes tocar.
Depois senti-me cair de um telhado que lentamente se inclinava e por onde ia rolando. Havia um pântano no fundo e mergulhei nele.

Noite de Urgência






A ideia não é original; o texto também não ; são excertos dos "Passos em Volta" do Helberto Helder. Restam as fotos...

Uma porta bate. Há gente no corredor. Vai-se ver. Nada. Ninguém. As pessoas perdem-se nos desvãos, degraus, cotovelos, nas penumbras da casa confusa. Está-se completamente só no meio dos outros.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Toma lá um brasão


Dedicado ao António







Todos nós temos a curiosidade de saber se entre os nossos antepassados se encontrariam valentes cavaleiros ou exploradores que nos deixassem orgulhosos. Mas lembro-me sempre de uma amiga que dizia que não devemos procurar muito a fundo na árvore geneológica porque de certeza que em todas as famílias existiram uma prostituta e um padre...
Que relação terá o António Maria Aráujo com D. Rodrigo Anes de Araújo, um fidalgo da Galiza? O neto deste terá sido o primeiro Araújo português- D. Vasco Rodrigues de Araújo. Seria um bom fidalgo ou apenas um bárbaro?

Era curioso ver assim fechar um círculo, já que o teu avô (na altura o último dos Pestanas Araújo) por força do destino havia de renovar o sangue dos descendentes outra vez com sangue galego. O avô não era fidalgo (ou seria?) mas era nobre e honesto. Talvez esse carácter se possa herdar sem ser por decreto, não achas ?

Mais extraordinário seria ainda a hipótese (remota, muito remota) que o nome Araújo descenda do rei Ramiro II de Leão. Infelizmente os registos da nossa família perderam-se num incêndio dos Arquivos da Ribeira Brava já bem dentro do século 20. Talvez estes blogues possam servir para evitar perdas de memória colectiva como essa.

Proponho-te em contrapartida dois brasões de armas para poderes colocar na porta do teu quarto. O primeiro pensa-se ser o da família do Vasco Rodrigues Araújo e o segundo do único Conde de Irajá que existiu. Chamava-se Manuel do Monte Rodrigues de Araújo e era político como gostas, mas também padre e foi capelão-mor de dois (2) imperadores!! D. PedroI e D. Pedro II do Brasil.




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Langerhans e o Cemitério Inglês




Paul Langerhans foi um cientista famoso apenas após o seu tempo e contudo o seu nome tornou-se imortal. Nasceu em Berlim e seguiu a profissão do pai, também médico. O seu nome fica ligado a duas estruturas distintas no corpo humano. São famosos os ilhéus de Langerhans, conglomerados de células no pâncreas onde se produzem hormonas como a insulina. Menos conhecidas mas importantes na resposta imunitária da pele, a nossa primeira barreira, são as células de Langerhans identificadas pelo próprio, apesar de pensar que eram células pertencentes ao sistema nervoso.

Foi viver para o Funchal em 1875, atraído pelo clima ameno e pela fama que a Madeira tinha como ideal para a cura da tuberculose que entretanto contraíra. Durante a sua estadia exerceu clínica, investigou a fauna local (sobretudo os vermes marinhos) escreveu apontamentos sobre a metereologia local e recomendações para caminhantes. Veio a casar com a viúva de um dos seus doentes, o que ainda hoje daria que falar. O casal terá arrendado então uma das mais belas casas do Funchal, a Quinta Lambert, hoje conhecida por todos como Quinta Vigia e que é a residência oficial do governo regional. Morreu aos 41 anos por falência renal e foi soterrado no cemitério inglês do Funchal.

O British Cemetery foi criado em 1761 quando a colónia inglesa crescera tanto e tinha tanto poder que o reino autorizou a compra pelos ingleses de um terreno fora das muralhas do Funchal de modo a que os protestantes pudessem ser enterrados em terra. Antes disso estavam proibidos de ser enterrados em solo católico e eram atirados ao mar na ponta do Garajau. Curiosamente o cemitério confina hoje com os jardins do bispo, a autoridade maior da Igreja Católica na região.
Quando miúdo a janela do meu quarto debruçava-se sobre um frondoso jardim e só tarde percebi que as copas das árvores ocultavam as campas desses "infiéis" entre as quais se encontra o Langerhans. Aparentemente este já tinha escolhido este local referindo-se a ele como “a true graveyard, isolated and quiet, a good place to rest”.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quanto são 10 centavos em euros ?

Quando falo em números grandes ainda penso muitas vezes em contos, o que cá em casa é mais ou menos como se quisesse explicar 0 preço em rands ou em dinares. Apesar de três dos miúdos terem nascido no período de transição euro-escudo, não fazem ideia do que estou a falar. Pois fiquem a saber que um conto correspondia a 1000 escudos e era um dinheirão.
"Um conto de réis" ou "toma lá vinte paus", são expressões que se vão perder com o tempo. Mas o tempo hoje, já se sabe, passa tão rápido que não vale um tostão furado.

Quando miúdo, as minhas moedas preferidas eram as de escudo e a de 10 centavos. A primeira porque valia dinheiro; com uma só, comprava dez cromos da bola na Dona Maria. Os cromos enrolavam uns rebuçados rasca de que não me recordo o sabor. Havia clubes com nomes de empresas (CUF, Riopele) e outros que quase desapareceram do mapa (Oriental, Atlético...). Ano sim, ano não, entrava o Maritimo, que naquela altura parecia um elevador a subir e a descer entre a primeira e sgunda divisão. A caderneta só se completava quando saia o jogador premiado, mas eu era um desventurado. Os cromos também eram conquistados ou perdidos jogando ao molhinho. dispunhamo-los em montinhos (molhinhos) no chão de face para baixo. Com a mão em concha tentávamos virar o cromo. Alguns malfeitores "ajudavam" o efeito de sucção com cuspo ou até ranho; quando descobertos havia porrada da grossa.

A moeda de 2$50 (dois e quinhentos...) era uma raridade mundial. Quando adolescente, um papo-seco-com-molho custava dois e quinhentos nas tascas da Rua da Mouraria ou do Mercado do Funchal. Quando 200 escudos passaram a valer um euro, também o cifrão desapareceu, trocado o $ por um € sem graça.

Esquecia-me da moeda de dez centavos, a mais pequena e tão leve que me entretinha a pô-la a flutuar. Dinheiro mais leve que a água ? Admirados? Também há quem ande com os bolsos cheios de ar..

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A Guerra da Bola de Berlim




A praia tornou-se um centro comercial!

Vendem-se saris e roupas de "design" com influência oriental ou magrebina. Óculos italianos e relógios de marca suiços, todos made in China ou em Taiwan. Estatuetas africanas do Senegal. Colares feitos no Ribatejo concorrem com outros mais simples, mas mais viajados com origens no Brasil. Daí também vieram os bikinis, tanguinhas e tal, em que o vendedor solícito, na falta de espelho disponível oferece o reflexo dos seus óculos para que as clientes possam observar o efeito da prova ( grande artista..).

Até as crianças estimuladas pela competição, montam barraquinhas diárias, em que conchas, pulseiras e colares se encontram à venda. Futuros empresários da praia...

E depois há as tradicionais bolas de Berlim; as da Felismina ainda são as melhores. Mas a firma Veia & Calado revolucionou o negócio. Em vez de um velho e seco algarvio, foram buscar um robusto reforço estrangeiro. Já não se ouve só o "bóóólinha" espalhado pela praia; o ucraniano tentou no primeiro ano, mas o "bulina" curto e seco que emitia era gozado pela canalha. Agora usa uma buzina de bicicleta para se fazer ouvir e diversificou o negócio. Além de bolas com e sem creme, pastéis de amêndoa e feijão, há agora a bolacha americana. Os guardanapos fazem publicidade a uma marca de telecomunicações e até chegou a distribuir baralhos de cartas como brinde. E se a encomenda for avultada faz simpáticas ofertas de bolas extra.
Como é competitivo o mercado da bola...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Teatro em Aviz





Aviz parece parada no tempo. Os contrastes entre os símbolos da Igreja e os do PC lembram os livros de Giovanni Guareschi. Neles brilha D. Camilo, padre com excelente domínio de vernáculo italiano e um gancho capaz de fazer os mais cépticos ver a luz do divino Espírito Santo. O seu rival é D. Peponne, o Presidente da Câmara, comunista de quatro costados e convicto anticlerical, mas também defensor dos valores tradicionais da família.

No início de Agosto, Aviz assistiu à estreia de uma nova companhia de teatro itinerante. Numa arrojada adaptação, Leonor Araújo mostrou uma versão moderna e atractiva dos “Três Porquinhos”, o que a torna a argumentista revelação do Verão. O público esgotou os lugares na sombra - que o calor Alentejano aperta – e não arredou pé, mesmo com o atraso inicial provocado pela ansiedade da actriz principal (a Joana, um lobo mau como há muito não se via nos palcos, perdão nos campos portugueses).

Ficamos pois à espera de nova actuação desta promissora companhia … Quando e onde será ??

domingo, 23 de agosto de 2009

Sagres - Espelho


sábado, 22 de agosto de 2009

Povos Brancos



















Intervalo à praia e fomos ver um bocadinho da Andaluzia. Aqui há umas aldeias a que chamam "Povos Brancos" pelo contraste entre a cal do casario e a paisagem. Misturam heranças romanas, visigóticas, mouras e cristãs. No caso de Almonaster la Real, também a herança portuguesa com o portal Manuelino da Igreja.

A mesquita do século X (décimo!!) domina do alto. É um bocadinho do Al-Andaluz.

Aparecida do nada, em plena Sierra de Aracena, os 600 m de altura de Almonaster amenizam um pouco o calor. A viagem desde o Algarve abriu o apetite. Começa-se pelo presunto, que a 20 Km de Jabugo é dos melhores do mundo...

Pra o ano vamos a outro destes povos. Companhia ?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Então... e mais?

Conheço-te desde sempre. Lembro-me de quando chegaste a casa e fiquei a olhar. Dormias serenamente, coisa que marca logo um homem para a vida.

Li no outro dia que a vida de uma pessoa se pode dividir em ciclos de 7 anos. Como vivemos num mundo cão talvez haja verdade nisso. No teu caso fui um espectador privilegiado. Fazes hoje 38 anos? Dá para aí uns quatro ciclos e meio.

O teu primeiro ciclo foi curto; só aí até aos cinco anos. A dificuldade na alimentação era torneada pela resistência da mãe e da Maria. Esta última uma grande devota do padre Martins - o da Ribeira Seca, o que viria a ser excomungado. Lembras-te como ela contava histórias fantásticas para conseguir que comesses, como aquela em que o fascista apontou a espingarda ao "padre santo" e este retorquiu com um "vade retro satanás" que fez com que os canos da arma se dobrassem e o malandro tivesse de fugir?
Este ciclo terminou quando interrompeste a missa do meio-dia em pleno momento de consagração e exclamaste em bom som "eu quero aquela bolacha!". A Igreja, atenta ao teu percurso próximo da ala radical, instituiu então missas mais curtas para as crianças de modo a evitar novas crises.

O segundo ciclo vai dos cinco até à adolescência. Corrias como um raio!!!
Foi a fase em que criaste uma forma de raciocínio que abalou alguns alicerces familiares - nunca a direito. Sempre dificil de perceber. Mas com frutos. Permitiu que fizesses a tua formação sempre sem dificuldade , sem stress aparente. Se a genialidade tem a ver com o fazer com que as coisas difíceis pareçam fáceis, então meu irmão tu és um génio... Espero que a Leonor que herdou essa característica, venha a revelar-se assim também.

Estive ausente do teu terceiro ciclo. Postanto esse não interessa.

O quarto ciclo foi já em Lisboa. Ainda muito presos à nossa ilha. Mantivémos a alma maritimista. Estes gajos nossos amigos não sabem o que é ir a duas finais da Taça de Portugal contra um grande. Perdemos ? Queremos lá saber, durante umas horas fomos os maiores do mundo... E fomos roubados como sempre...
Nesta fase criaste o teu mundo, que o Luis já descreveu tão bem. De facto, o Infante é a banda sonora da família. Nos bons momentos, como quando te conseguimos despachar para a Caia, e nem nos pediram nada em troca.. Mas também nos momentos em que estamos longe ou em que nos lembramos do pai.. ("calem-se, não se ouve nada" , "que bem que canta o pitufo").

O quinto ciclo inicou-se com o Kiko. Sobre este falaremos daqui a uns anos. Para que possas acabar a conversa como sempre; ..."Então..., e mais... ?"

Parabéns amigo

Que esta tua guerra seja como a do Solnado.

domingo, 16 de agosto de 2009

A segunda geração



No fim-de-semana revi amigos. Como tenho poucos, há que conservá-los. Cada um tem uma característica especial que o torna único e inconfundível. Juntámo-nos aproveitando a intersecção das férias, para conbíbio.

A mesa das crianças parou de crescer em número...mas em tamanho segue em força. Alguns são já amigos de unha e carne tal como os pais. Talvez a herança genética os aproxime. E talvez um dia repitam pela centésima vez aquela aventura que tiveram com o x ou com y. As grandes amizades nascem desses momentos, das confidências, algumas toldadas pela noite e pela emoção do momento... (o texto vai estar repleto de eufemismos, eu sei - é um blogue familiar).

A vocês miúdos posso dizer-vos (e às 3 que faltaram ao jantar) que assisti ao namoro dos vossos pais, inicialmente com a paixão que os anos propiciavam, depois com a ideia de formar uma equipa a tempo inteiro. Conheço-os a todos desde pequeninos, como se fossem meus sobrinhos de facto porque a alguns dos seus pais trato-os como irmãos. Se se diz que não se escolhe a família, mas que se escolhem os amigos, vocês têm a sorte de juntar dois em um - decidimos incluir-vos neste grande grupo e quanto a isso não há discussão.


Posso ainda dizer-vos que eu e as vossas mães estamos na mesma em relação há vinte e cinco anos. Os vossos pais já não é bem assim:

O TZ M arranjou um vício de beber litros de mistela sem alcool desde que lhe disseram que assim melhorava do GTi ou GTD ou lá o que é isso. Foi concerteza um dos padress de Linharess de perdizess em quem confia cegamente já que alguns dos melhores especialistas mundiais que não consultou, a maioria (o AF e eu), já o démos como curado há muito tempo. A causa estava apenas no excesso de pilhas alcalinas...

O NS está a ficar com um ar de sábio africano... ouvindo, pensando, matutando.., com um ar blazé da savana, que ainda estranhamos, mas que sabemos passageiro. Deixa tar que os portugueses que iam para África antes chegavam a ficar meses com a mente entorpecida pelo calor e pela malária. Tu até te tens aguentado bem... E "há-des" voltar.

Quem já regressou, estraditado pela terceira vez de um país no faraway, foi o cyclopes. Ficou de tal modo marcado pela passagem no Paquistão, que insiste em seguir o fuso horário desse país e a meio-do-jantar já olha para o relógio insistindo no avançado da hora. Pensando bem o único país em que poderá assistir às festas diplomáticas até ao final deve ser o Vaticano, i, i ...

O meu irmão AF continua com a eterna angústia. Não sabe se é mais do Sporting ou só contra o Benfica. Mas refinou a sua voz... a sua verve... lembram-se da outra que cantava: Com a voz que me deste... Pois senhor com a voz que lhe deste como é que este homem ainda não é o porta-voz do Sporting. Faz-me lembrar o saudoso Acácio Pestana que pintava os relatos do meu Marítimo de cores que até eu tinha dificuldade em reconhecer.

E o FM que continua "as a Rock", sempre na mesma (ok é também um bocadinho excepção). É o marco geodésico dos meus amigos. Não se dá por ele e pimba lá está, no centro da questão e pronto para o que der e vier...

Estava ainda o VM, que revolucionou a Vidigueira ao insistir que os porcos não são todos iguais.

E o que eu gostava de ter jantado com o darg, o maluco, o espad, o major, o G Res, o mascar.. Para o ano é que é...