domingo, 22 de novembro de 2009

O poder da almofada



Existem almofadas para todos os gostos. De fibra, de penas, de espuma, ergonómicas, anti-ácaros, anti-stress. De tamanhos diversos: baixinhas para quem dorme de barriga para baixo, médias para quem dorme de lado, altas para quem dorme de barriga para cima. É dos utensílios mais personalizados; molda-se à nossa forma de dormir e é um espelho da nossa forma de estar. É impossível oferecer uma almofada a alguém; a escolha é demasiado pessoal e complicada. Em Espanha a norma são os travesseiros; sempre os detestei. No meu hospital as almofadas são enormes e de plástico; parecem autênticos blocos, prontos a aumentar o martírio de quem não tem direito de escolha.

Quando era um jovem interno, nos tempos em que os chefes ainda descansavam umas horas, calhava-me sempre o turno das horas mortas. O movimento da urgência à noite parecia muito menor do que o actual. Ainda se apagavam as luzes dos balcões e aproveitávamos para relaxar.

Uma noite tinha internado um filho de um colega mais velho, com tentativa de suicídio após ter ingerido vários medicamentos. O coctail utilizado, diverso e abundante, fazia com que apenas respondesse provisoriamente aos antídotos habituais. Estava profundamente sedado e o receio era que se agravasse a dificuldade respiratória que exibia. Em grande parte esta devia-se à flacidez dos músculos da base da língua, condicionando a queda desta e a obstrução das vias aéreas.

Que fazer? Acordar o chefe e reconhecer a ignorância? O pânico era que houvesse uma paragem respiratória e o tivesse de entubar, num momento sem margem para erro. Revia mentalmente os esquemas terapêuticos a ver se não falhava nada; talvez uma perfusão de outro broncodilatador... ou de qualquer coisa que o acordasse...

Por acaso apareceu uma colega mais velha que vinha observar outro doente. Pedi-lhe ajuda, mas ela apenas ficou estática, especada a olhar para o doente durante minutos que pareciam intermináveis. Devia estar a contar os ciclos respiratórios ou a ver algum sinal estranho que me escapava. O doente jazia deitado de costas (em decúbito dorsal dizemos), apenas reactivo à dor, respirando com a ajuda de oxigénio suplementar por máscara.
Quando já estava a pensar que não tinha valido a pena pedir ajuda àquela inútil, ela mexeu-se. Dirigiu-se a uma auxiliar e pediu-lhe uma almofada. Colocou-a debaixo da cabeça do doente de maneira a que a cabeça fica-se flectida sobro o tronco, quase a 90 graus. Desse modo disse-me, diminuia a possibilidade de haver obstrução da via aérea porque a língua era empurrada para a frente. O rapaz dormiu serenamente toda a noite e de manhã, já desperto, arrependia-se de um acto idiota e impulsivo realizado por um motivo de que já nem me lembro, ( mas seguramente por culpa de uma mulher qualquer).

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