quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Carpe Diem

Escrevo este texto para que um dia os meus filhos saibam que conheci uma mulher extraordinária.

Nasceu em Gaula, uma pequena freguesia da nossa ilha deitada sobre o mar. Freira de clausura, a Guerra Civil espanhola apanhou-a num convento em plena zona de disputa entre os adeptos de Franco e os anarquistas como lhes chamava (em Teruel, seria ?). Um dia, o jardineiro que visitava o convento e que entre dentes cada vez que a via sussurrava " que desperdício de vida llevas portuguesa" foi levado pelos nacionalistas. Quando se fecharam as portas do convento, ouviu-se uma salva de tiros e depois ficou o silêncio. Se calhar mataram-no, dizia-me, ainda com esperança em afastar o desfecho inevitável.

Maria era freira e enfermeira. Quando a conheci, já tarde nos oitenta, continuava a sua missão agora não em clausura, mas oferecendo a sua bondade à sociedade. Ajudava idosos doentes, muitos mais novos e saudáveis que ela, cujo coração já só pedia sopas e descanso. O seu sotaque fazia lembrar a Madeira antiga, tão cerrado como se apenas ontem tivesse abandonado o calor da ilha e da família.

Há três anos pediu-me a reforma. Não sabia se havia de regressar à ilha; por um lado achava que estava na hora, por outro já não tinha amigos ou família excepto alguns sobrinhos quase desconhecidos. Por fim decidiu-se. O convento de Santa Teresinha esperava-a.

Passou a telefonar de x-em-quando, sempre em datas importantes para ela como a Páscoa e o Natal. Surprendia-se quando a reconhecia de imediato e lhe recriminava as saudades que os seus mimos me deixavam. Estes consistiam num doce elaborado no convento, embrulhado num simples guardanapo, que à saía da consulta me deixava com um " para si doutor, um miminho". Fechada a porta, tirava um tempo para mim e deliciava-me com aquele lanche. Durante segundos sentia-me "near to heaven"...

Este ano a Irmã Maria não me telefonou a desejar as boas festas.

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