terça-feira, 13 de julho de 2010

O mistério das chaves desaparecidas





Um guia em Melbourne falava de uma lenda local sobre a presença de portugueses na região bem antes da presença dos ingleses. A lenda envolvia umas chaves misteriosas, as chaves de Geelong.

Por volta de 1850 o superintendente do distrito de Port Philipp ( agora Melbourne) Charles la Trobbe, acompanhava umas escavações numa pedreira junto à costa. Alguém lhe chamou a atenção para umas chaves de aspecto envelhecido que teriam sido encontradas durante as escavações. La Trobbe calculou que pelo seu aspecto teriam 100 a 150 anos e que poderiam ter sido perdidas por um explorador europeu, eventualmente um português.

A publicação deste achado em 1871 criou um grande burburinho, até porque entretanto as chaves se tinham novamente perdido e nunca mais foram vistas. Nem elas nem os desenhos que La Trobbe tinha efectuado do achado. Não convinha nada aos ingleses que os portugueses pudessem reivindicar a descoberta do território.


Mas...

Alguns dos mapas que os franceses, holandeses, ingleses e outros navegadores de segunda usavam para as suas viagens tinham como base mapas portugueses comprados ou roubados. Espionagem à moda do século dezasseis.

Um desses conjuntos de mapas franceses conhecidos como mapas de Dieppe representam uma grande massa de terra - Jave la Grande - localizada a sul da Indonesia. Alguns dos nomes no mapa são portugueses. Se virarmos o mapa 90 graus ficamos com uma representação da costa sudeste da australia, onde se localizam Melbourne e Sidney. Parece que os portugueses queriam manter Java la Grande em segredo porque esta estaria do lado errado do Tratado de Tordesilhas, o lado espanhol....

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O viking e o papagaio


Há uns anos observei um homem que se queixava de sudação excessiva. Nos seus trintas, tinha estatura mediana, com nariz e queixo proeminentes e mãos desproporcionadamente grandes.

Perguntei-lhe se os pés tinham crescido, o que para sua surpresa era verdade, mas nunca valorizara esse aspecto. A investigação revelou um tumor da hipófise que segrega hormona do crescimento em excesso. Seguramente o tumor tinha surgido apenas na idade adulta, porque senão estaria à espera de um individuo enorme, já que esta doença nas crianças e jovens costuma culminar em gigantismo. A acromegalia (de "extremidades grandes") foi curada com a remoção do tumor. Não voltei a ter contacto com esta doença, até que há dias fui visitar o museu Viking em Oslo.

Tradicionalmente os grandes chefes eram enterrados com os seus barcos e fortuna para os acompanhar para o além. Antes de encontrar Odin, muitos foram roubados, restando pouco mais que os esqueletos dos navios e dos ocupantes do navio. O Homem de Gokstad (sítio onde foi soterrado o barco) tinha 1,81m (um gigante para a época) e pensa-se que a robustez dos seus ossos e a estrutura da sua face, se deva a um destes tumores. A zona correspondente à sela turca (local na base do crânio onde se aloja a hipófise) é invulgarmente grande e aplanada, possivelmente moldada pelo crescimento de um tumor, como se encontra nos doentes com acromegalia.

Gokstad não morreu da doença, mas em combate, como o demonstram incisões de armas de metal nas pernas e noutros ossos. O seu aspecto devia ser formidável e aterrador, mesmo para os outros vikings cuja primeira lei dizia "sê bravo e agressivo".

A acompanhar os restos do rei (?) encontravam-se vários esqueletos de cavalos e cães, o que não é de admirar porque seguramente a caça era importante para os vikings, mas a razão para a existência de um esqueleto de papagaio no navio, deixa-me mais intrigado ainda do que a dúvida sobre a existência (ou não) de acromegalia no Homem de Gokstad.

Onde diabo arranjou ele um papagaio?

sábado, 13 de março de 2010

Problemas de memória


No seu livro de memórias, Garcia Marquez tem uma frase terrível. Diz algo como; a vida não é o que vivemos mas o que nos lembramos dela. Quando a li, fiquei chocado. As imagens que tenho do passado são muitas vezes neblinas indefinidas de que restaram sentimentos e ténues emoções. Uma infância feliz e despeocupada, uma adolescência com excessos mas que não deixaram mossas de maior, enfim... Impressões vagas muitas. A viagem no Santa Maria na ida para a Madeira, o calor aconchegante e a humidade no ar do Funchal, o mar omnipresente, o carinho da familia... Pormenores, poucos. Ainda por cima tenho dois irmãos mais novos e mentirosos que teimam que se lembram de coisas que ocorreram quando ainda não sabiam andar.

Hoje li uma versão muito mais optimista sobre esta dificuldade em segurar as imagens do tempo. Numa fotoreportagem a autora Sofia Cunha diz o seguinte: "se há característica que não tenho é uma boa memória - o que pode não ser mau, porque aquilo que um dia foi, é para mim qualquer coisa completamente diferente ao fim de uns tempos. Transforma-se normalmente em algo a meio caminho entre o que efectivamente foi e o que eu gostava que tivesse sido. Em última análise, transforma-se naquilo que eu mais tarde fantasiei ter acontecido.".

Deve ser por isso que passei a andar com máquina fotográfica sempre à mão. Fixando o momento para mais tarde recordar.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Carpe Diem

Escrevo este texto para que um dia os meus filhos saibam que conheci uma mulher extraordinária.

Nasceu em Gaula, uma pequena freguesia da nossa ilha deitada sobre o mar. Freira de clausura, a Guerra Civil espanhola apanhou-a num convento em plena zona de disputa entre os adeptos de Franco e os anarquistas como lhes chamava (em Teruel, seria ?). Um dia, o jardineiro que visitava o convento e que entre dentes cada vez que a via sussurrava " que desperdício de vida llevas portuguesa" foi levado pelos nacionalistas. Quando se fecharam as portas do convento, ouviu-se uma salva de tiros e depois ficou o silêncio. Se calhar mataram-no, dizia-me, ainda com esperança em afastar o desfecho inevitável.

Maria era freira e enfermeira. Quando a conheci, já tarde nos oitenta, continuava a sua missão agora não em clausura, mas oferecendo a sua bondade à sociedade. Ajudava idosos doentes, muitos mais novos e saudáveis que ela, cujo coração já só pedia sopas e descanso. O seu sotaque fazia lembrar a Madeira antiga, tão cerrado como se apenas ontem tivesse abandonado o calor da ilha e da família.

Há três anos pediu-me a reforma. Não sabia se havia de regressar à ilha; por um lado achava que estava na hora, por outro já não tinha amigos ou família excepto alguns sobrinhos quase desconhecidos. Por fim decidiu-se. O convento de Santa Teresinha esperava-a.

Passou a telefonar de x-em-quando, sempre em datas importantes para ela como a Páscoa e o Natal. Surprendia-se quando a reconhecia de imediato e lhe recriminava as saudades que os seus mimos me deixavam. Estes consistiam num doce elaborado no convento, embrulhado num simples guardanapo, que à saía da consulta me deixava com um " para si doutor, um miminho". Fechada a porta, tirava um tempo para mim e deliciava-me com aquele lanche. Durante segundos sentia-me "near to heaven"...

Este ano a Irmã Maria não me telefonou a desejar as boas festas.