sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Noite de urgência 2




À noite tive um sonho incómodo onde se representavam umas escadas de pedra; do cimo delas, eu fazia um sinal imperceptível de despedida a alguém que se afastava em baixo. Atravessei portas que se abriam e fechavam à minha passagem sem lhes tocar.
Depois senti-me cair de um telhado que lentamente se inclinava e por onde ia rolando. Havia um pântano no fundo e mergulhei nele.

Noite de Urgência






A ideia não é original; o texto também não ; são excertos dos "Passos em Volta" do Helberto Helder. Restam as fotos...

Uma porta bate. Há gente no corredor. Vai-se ver. Nada. Ninguém. As pessoas perdem-se nos desvãos, degraus, cotovelos, nas penumbras da casa confusa. Está-se completamente só no meio dos outros.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Toma lá um brasão


Dedicado ao António







Todos nós temos a curiosidade de saber se entre os nossos antepassados se encontrariam valentes cavaleiros ou exploradores que nos deixassem orgulhosos. Mas lembro-me sempre de uma amiga que dizia que não devemos procurar muito a fundo na árvore geneológica porque de certeza que em todas as famílias existiram uma prostituta e um padre...
Que relação terá o António Maria Aráujo com D. Rodrigo Anes de Araújo, um fidalgo da Galiza? O neto deste terá sido o primeiro Araújo português- D. Vasco Rodrigues de Araújo. Seria um bom fidalgo ou apenas um bárbaro?

Era curioso ver assim fechar um círculo, já que o teu avô (na altura o último dos Pestanas Araújo) por força do destino havia de renovar o sangue dos descendentes outra vez com sangue galego. O avô não era fidalgo (ou seria?) mas era nobre e honesto. Talvez esse carácter se possa herdar sem ser por decreto, não achas ?

Mais extraordinário seria ainda a hipótese (remota, muito remota) que o nome Araújo descenda do rei Ramiro II de Leão. Infelizmente os registos da nossa família perderam-se num incêndio dos Arquivos da Ribeira Brava já bem dentro do século 20. Talvez estes blogues possam servir para evitar perdas de memória colectiva como essa.

Proponho-te em contrapartida dois brasões de armas para poderes colocar na porta do teu quarto. O primeiro pensa-se ser o da família do Vasco Rodrigues Araújo e o segundo do único Conde de Irajá que existiu. Chamava-se Manuel do Monte Rodrigues de Araújo e era político como gostas, mas também padre e foi capelão-mor de dois (2) imperadores!! D. PedroI e D. Pedro II do Brasil.




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Langerhans e o Cemitério Inglês




Paul Langerhans foi um cientista famoso apenas após o seu tempo e contudo o seu nome tornou-se imortal. Nasceu em Berlim e seguiu a profissão do pai, também médico. O seu nome fica ligado a duas estruturas distintas no corpo humano. São famosos os ilhéus de Langerhans, conglomerados de células no pâncreas onde se produzem hormonas como a insulina. Menos conhecidas mas importantes na resposta imunitária da pele, a nossa primeira barreira, são as células de Langerhans identificadas pelo próprio, apesar de pensar que eram células pertencentes ao sistema nervoso.

Foi viver para o Funchal em 1875, atraído pelo clima ameno e pela fama que a Madeira tinha como ideal para a cura da tuberculose que entretanto contraíra. Durante a sua estadia exerceu clínica, investigou a fauna local (sobretudo os vermes marinhos) escreveu apontamentos sobre a metereologia local e recomendações para caminhantes. Veio a casar com a viúva de um dos seus doentes, o que ainda hoje daria que falar. O casal terá arrendado então uma das mais belas casas do Funchal, a Quinta Lambert, hoje conhecida por todos como Quinta Vigia e que é a residência oficial do governo regional. Morreu aos 41 anos por falência renal e foi soterrado no cemitério inglês do Funchal.

O British Cemetery foi criado em 1761 quando a colónia inglesa crescera tanto e tinha tanto poder que o reino autorizou a compra pelos ingleses de um terreno fora das muralhas do Funchal de modo a que os protestantes pudessem ser enterrados em terra. Antes disso estavam proibidos de ser enterrados em solo católico e eram atirados ao mar na ponta do Garajau. Curiosamente o cemitério confina hoje com os jardins do bispo, a autoridade maior da Igreja Católica na região.
Quando miúdo a janela do meu quarto debruçava-se sobre um frondoso jardim e só tarde percebi que as copas das árvores ocultavam as campas desses "infiéis" entre as quais se encontra o Langerhans. Aparentemente este já tinha escolhido este local referindo-se a ele como “a true graveyard, isolated and quiet, a good place to rest”.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quanto são 10 centavos em euros ?

Quando falo em números grandes ainda penso muitas vezes em contos, o que cá em casa é mais ou menos como se quisesse explicar 0 preço em rands ou em dinares. Apesar de três dos miúdos terem nascido no período de transição euro-escudo, não fazem ideia do que estou a falar. Pois fiquem a saber que um conto correspondia a 1000 escudos e era um dinheirão.
"Um conto de réis" ou "toma lá vinte paus", são expressões que se vão perder com o tempo. Mas o tempo hoje, já se sabe, passa tão rápido que não vale um tostão furado.

Quando miúdo, as minhas moedas preferidas eram as de escudo e a de 10 centavos. A primeira porque valia dinheiro; com uma só, comprava dez cromos da bola na Dona Maria. Os cromos enrolavam uns rebuçados rasca de que não me recordo o sabor. Havia clubes com nomes de empresas (CUF, Riopele) e outros que quase desapareceram do mapa (Oriental, Atlético...). Ano sim, ano não, entrava o Maritimo, que naquela altura parecia um elevador a subir e a descer entre a primeira e sgunda divisão. A caderneta só se completava quando saia o jogador premiado, mas eu era um desventurado. Os cromos também eram conquistados ou perdidos jogando ao molhinho. dispunhamo-los em montinhos (molhinhos) no chão de face para baixo. Com a mão em concha tentávamos virar o cromo. Alguns malfeitores "ajudavam" o efeito de sucção com cuspo ou até ranho; quando descobertos havia porrada da grossa.

A moeda de 2$50 (dois e quinhentos...) era uma raridade mundial. Quando adolescente, um papo-seco-com-molho custava dois e quinhentos nas tascas da Rua da Mouraria ou do Mercado do Funchal. Quando 200 escudos passaram a valer um euro, também o cifrão desapareceu, trocado o $ por um € sem graça.

Esquecia-me da moeda de dez centavos, a mais pequena e tão leve que me entretinha a pô-la a flutuar. Dinheiro mais leve que a água ? Admirados? Também há quem ande com os bolsos cheios de ar..