domingo, 20 de setembro de 2015

Precisas de iodo?

No mês de Agosto iniciei uma colaboração com a Revista Dada que tem como alma a Fátima Machado. Pediu-me que escrevesse uma espécie de crónica com a visão deturpada de médico e de homem. Não serão nunca textos médicos , mas como afastar a medicina se passo tanto tempo com ela?   

Chamei-lhe Letra de Médico. Quem me conhece sabe a tenho dificuldade que tenho em escrever. Por um lado  tenho um letra horrivel, mas bem pior é a alergia a teclados. Tenho que reler os textos três vezes porque a maior parte das vezes não há corretor que valha. É  como se me acompanhasse sempre um espirito burlão que subtrai vogais, esconde sinais e altera as consoantes. 

De qualquer modo fica aqui, a que foi a primeira crónica. A de Agosto de 2015.



Precisas de iodo?


Todos temos ecos de frases ouvidas na infância. Verão, férias grandes e por fim o contacto com a areia: “ Esta praia é ótima, cheira a iodo!”. Que aroma será esse?

Sendo verdade que a água do mar contém iodo, como explicar que nos Açores e na Madeira a população tenha níveis baixos de iodo? Num estudo recente, 99% das grávidas açoreanas tinham níveis insuficientes desse elemento. Sabe-se que o iodo é fundamental para a síntese de hormonas da tiroide e que a sua carência durante a gravidez pode levar a hipotiroidismo no recém-nascido, com risco de atraso psicomotor tremendo. É por isso que está recomendada a suplementação de iodo durante a gravidez e que todos os nossos bebés doseiam as hormonas da tiroide quando nascem (o famoso “teste do pezinho”).

Hoje, não existem deficiências graves de iodo e este raramente causa hipotiroidismo. O peixe e as algas, leguminosas, hortícolas e lacticínios são boas fontes de iodo. O seu excesso também pode fazer mal, pelo que suplementos com sal iodado só com conselho médico!

Os solos mais pobres em iodo são de montanha, submetidos a maior erosão (o que explica a pobreza nos solos das ilhas). Entre nós, a Serra da Estrela e a zona de Oleiros eram conhecidas pelo elevado número de casos de bócio (um aumento de volume no pescoço por maior dimensão da tiroide). A carência de iodo e o hipotiroidismo durante o desenvolvimento pode levar a baixa estatura, traços faciais grosseiros e dificuldades na aprendizagem. Cretinismo é o termo médico. O nome deriva do adjetivo dado por Napoleão ao atravessar os Alpes na invasão a Itália, quando desesperava por recrutar mancebos capazes entre uma série de aldeões locais pouco garbosos e não muito diligentes. Foram considerados quase sub-humanos, “quase cristãos” e do Christien francês terá derivado o nome cretino.


Por isso antes de pensar em chamar cretino a alguém, mande-o ao médico. Pode ter carência de iodo. 

domingo, 12 de julho de 2015

Propaganda

Na guerra civil espanhola milhares de voluntários estrangeiros combateram pelos dois lados do conflito. A maioria terá optado por lutar nas Brigadas Internacionais ao lado da  República contra os rebeldes de Franco. 

Gente como Willy Brandt, Hemingway, George Orwell e muitos desconhecidos foram atraídos por ideais políticos, românticos ou publicidade como esta. A imagem de uma criança morta num bombardeamento da periferia de Madrid, foi utilizada pelo Ministério da Propaganda para atrair britânicos para a  causa. A mensagem  a passar era que se a indiferença persistisse, se esta violência fosse tolerada,  as crianças britânicas as próximas vítimas. Houve quem se deixasse tocar e combatesse uma guerra que inicialmente não era a sua. 

O esforço não acabaria com as mortes. Pouco depois, o conflito não respeitaria fronteiras e crianças seriam bombardeadas um pouco por toda a parte com o início da segunda guerra. 

A frase não morreu esquecida. `If You Tolerate This Then Your Children Will Be Next` é o  título de uma música dos Manic Street Preachers, a única que atingiu o número 1 e com a qual quiseram homenagear os galeses que aderiram ao desafio. Muitos não regressaram.
 https://www.youtube.com/watch?v=cX8szNPgrEs 

Não era só do lado republicano que se encontravam voluntários cheios de ideais, muitas vezes próximos do extremismo. Ao lado dos falangistas rebeldes participaram centenas de  irlandeses atraídos na luta pela defesa do  catolicismo mais conservador contra o ateísmo comunistas. 

E agora? Estarão estes radicalismos ultrapassados? Será ainda possível envolvermos-nos em  opções semelhantes ?

Já em 2015, foram detidas em Espanha pessoas acusadas de recrutar adolescentes para o exército islâmico em luta na Síria. Parece que até já tinham convencido algumas. Também sabemos que existem dezenas de portugueses que optaram por combater desse lado, e diariamente vamos tomando conhecimento nas atrocidades inimagináveis em que participam.

 Com que tipo de propaganda e promessas foram convencidos ? Como conter este  paradoxo  em que cidadãos livres se oferecem para lutar contra a liberdade e os direitos humanos? Não o conteremos pela força, sabendo que a intolerância gera intolerância, mas terá de haver firmeza. 

E propaganda também, muita propaganda. Quantos milhões de  muçulmanos, hindus, judeus, cristãos, budistas e outros, vivemos juntos em paz por todo o mundo, sentindo as mesmas dificuldades, mas tendo deveres e direitos iguais? É importante espalhar que essa é a forma de vida que queremos, uma escolha que não nos foi imposta.  A noticia tem de chegar tmanbém ao interior desses países. Não são imagens de  Rambos vingadores que podem seduzir os moderados muçulmanos  a poderem lutar por dentro contra o  sistema,  mas sim o chegarem imagens que mostram que no ocidente  têm mais direitos e   respeito pela sua vida do que lá.  Se é preciso fazer  propaganda que se faça.  

terça-feira, 19 de maio de 2015

Aprendi com um amigo Dominicano que eles são a ordem dos  pregadores por natureza. A palavra, também é usada como ferrramenta  na medicina. Para ensinar, para dar alento, para descobrir a causa de um mal. 

Mas mais forte do que a palavra é o exemplo, contrariando o ditado hipócrita do "faz o que digo ..."  Nem sempre é fácil estar do lado do oprimido, do mais fraco e  de quem sofre. Pequenos gestos podem mudar percursos, mas os grandes gestos devem ser recordados como exemplo.

Há tempos, em plena comemoração pelo final da segunda guerra mundial, entrei numa igreja no centro histórico de Varsóvia. Dominicana por sinal. Igreja simples, desinteressante até. Preparava-me para sair, quando um cartaz em inglês pedia a atenção. Descrevia os acontecimentos da revolta de 44.

Nesse ano e  com os Russos já às portas da cidade, os Polacos sublevaram-se contra a ocupação nazi. As forças eram desiguais e o combate intenso, esperando o apoio do exército vermelho que nunca chegou. A luta era  alimentada pelo ódio e ressentimento pela perda das dezenas de milhar de habitantes da cidade presos ou mortos. Só no gueto de varsóvia terão sido aniquilados 350000 judeus ( mais do que a população de Santarém, Setúbal e Coimbra  juntos ) .

A vitória da resistência foi parcial e fugaz. Algumas zonas da cidade hasteavam a sua bandeira, mas outras mantinham-se dominadas pelos nazis. A resposta de Hitler foi brutal. Quis mostrar ao resto da Europa um castigo exemplar e a resposta foi arrasar a cidade. Todo os edificios com significado histórico para os Polacos foram marcados e dinamitados. Os restantes quiemados. Noventa % da cidade foi arrasada. 

Durante a  revolta foi montado um hospital de campanha na igreja. Quando ocorriam os bombardeamentos, muitos dos vizinhos  procuravam abrigo sob as suas  paredes e mais de mil foram mortos quando a  igreja foi atingida. Era contudo imperioso que a ajuda prosseguisse e o hospital continuou,  sabe-se lá em que condições. Não havia literalmente outro remédio.

No dia 2 de Setembro de 1944, cerca de um mês após o início da revolta, os nazis invadiram a igreja. Começaram por fuzilar todo o corpo médico e de enfermagem. Depois os restantes... 



No fim da guerra quando foram recuperar as ossadas, a desordem era tal que não se conseguiam identificar os corpos. Optaram por colocar um novo piso sobre esses restos. 

Um novo começo, sobre um passado inexplicável e terrível. Que não pode ser esquecido.





quarta-feira, 1 de maio de 2013

God Sent Me an Angel

Esta manhã, encontrei uma folha solta que guardei de uma reunião de doenças raras que assisti há uns anos atrás. Nessa reunião, uma mãe de uma miúda com uma dessas doenças sem tratamento eficaz e com um destino provavelmente fatal a curto prazo, expôs a sua experiência de vida. O seu relato era fortíssimo, capaz de penetrar na couraça defensiva que vamos criando com o contacto contínuo com o sofrimento e a dor. A coragem e a força daquela mãe, tenho-a visto em algumas pessoas da minha família, em amigos, e familiares de doentes. Normalmente, não são pessoas amarguradas, mas pelo contrário gratas e enriquecidas pelo amor dessas crianças.

Dessa reunião guardei um poema escrito por alguém da equipa de saúde, que ajudou a cuidar de Aisha, uma rapariga com uma mucopolissacaridose que não resistiu à doença. O poema não revela o nome ou a profissão do autor, o que me faz imaginar que se tivéssemos o talento e a fé do poeta, poderia ser escrito por qualquer um de nós, retribuindo o carinho e talvez ajudando a tornar mais leve o caminho de algumas dessas pessoas.  O poema diz assim:

God send me an angel.
It had a broken wind
I bent my head and wondered
"How could God do such a thing?"

When I asked the God
Why he sent this child to me 
The answer was forthcoming
He said "Listen, and you'll see."

"My children are all precious,
and none is like the rest.
Each one to me is special,
and the least is as the best.

I sent each one from Heaven,
and I place it in the care
of those who known My mercy,
those with love to spare.

Sometimes I take them back again,
sometimes I let them stay.
No matter what may happen
I am never far away.

So if you find an angel
And if you don´t know what to do
Remember I am with you
Love is all  I ask of you".

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Maritimo sempre

Sempre fui verde-rubro. O Marítimo esteve no coração do meu avô, do meu pai, está no dos meus irmãos e  até passou alguma dessa paixão para os meus filhos e sobrinhos. As nossas cores são as da República, escolhidas pela razão de que à nascença todos somos iguais e temos os mesmos direitos. O nosso símbolo é o leão do Almirante Reis, nobre sem igual.

A história diz-nos que fomos campeões de portugal em 1925/26. Ganhámos na meia-final ao Porto por 7-1. E na final 2-0 ao Belenenses.  Uma façanha. Cita o site do Maritimo:

"O aspecto do campo quando faltam poucos minutos para começar o encontro é magnífico", relata o correspondente d´‘Os Sports’. E prossegue: "Camarotes, bancadas, recinto dos peões – tudo a transbordar. Respira-se a atmosfera de ansiedade; pelo interesse do jogo e pela curiosidade de presenciar a atitude do público". Quando falta muito pouco para as 16 horas, o Marítimo entra em campo. É acolhido com simpatia. Os jogadores madeirenses correspondem com ‘hurras’.

E com que equipa. Apresento-vos da esquerda para a direita o Zé Pequeno, o Ortega, o Janota, o Beiçolinhas, o Ranfão, o António Alves, o Bisugo, o Fancheca, o Patas, o Mariazinha e o Camarão.



Estes nomes emocionam. A pinta do Janota a meio-campo, a classe do Ranfão ou do Patas a entrar de carrinho, a arte do Mariazinha a fazer-se ao penalti, o Beiçolinhas a dialogar com o árbitro, as triangulações entre o Bisugo, o Fancheca e o Camarão...


Deuses dos estádios...



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A árvore de Cajal

Milhares e milhares. Comunicando, "pulsando", emitindo. São assim os neurónios, transmitindo os impulsos que nos fazem, pensar, temer, odiar, amar, sobreviver.
No inicio pensava-se que eram vasos. Foi Ramon y Cajal que chegou a conclusão do que eram na verdade.
Grande desenhador ilustrou as suas observações de uma forma meticulosa e que ainda hoje servem de modelo rigoroso do sistema nervoso.
Como numa árvore, as ramificações surgem dispersando-se como deltas de um rio. Também assim procura a luz esta árvore Lisboeta neste Inverno soalheiro






segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Luz


Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta, 
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter, 
Pergunto a mim próprio devagar 
Porque sequer atribuo eu 
Beleza às coisas


Alberto Caeiro