Nasceu em Gaula, uma pequena freguesia da nossa ilha deitada sobre o mar. Freira de clausura, a Guerra Civil espanhola apanhou-a num convento em plena zona de disputa entre os adeptos de Franco e os anarquistas como lhes chamava (em Teruel, seria ?). Um dia, o jardineiro que visitava o convento e que entre dentes cada vez que a via sussurrava " que desperdício de vida llevas portuguesa" foi levado pelos nacionalistas. Quando se fecharam as portas do convento, ouviu-se uma salva de tiros e depois ficou o silêncio. Se calhar mataram-no, dizia-me, ainda com esperança em afastar o desfecho inevitável.
Maria era freira e enfermeira. Quando a conheci, já tarde nos oitenta, continuava a sua missão agora não em clausura, mas oferecendo a sua bondade à sociedade. Ajudava idosos doentes, muitos mais novos e saudáveis que ela, cujo coração já só pedia sopas e descanso. O seu sotaque fazia lembrar a Madeira antiga, tão cerrado como se apenas ontem tivesse abandonado o calor da ilha e da família.
Há três anos pediu-me a reforma. Não sabia se havia de regressar à ilha; por um lado achava que estava na hora, por outro já não tinha amigos ou família excepto alguns sobrinhos quase desconhecidos. Por fim decidiu-se. O convento de Santa Teresinha esperava-a.
Passou a telefonar de x-em-quando, sempre em datas importantes para ela como a Páscoa e o Natal. Surprendia-se quando a reconhecia de imediato e lhe recriminava as saudades que os seus mimos me deixavam. Estes consistiam num doce elaborado no convento, embrulhado num simples guardanapo, que à saía da consulta me deixava com um " para si doutor, um miminho". Fechada a porta, tirava um tempo para mim e deliciava-me com aquele lanche. Durante segundos sentia-me "near to heaven"...
Este ano a Irmã Maria não me telefonou a desejar as boas festas.