
Um primo nosso tem uma doença estranha; um pouco mais novo que eu, estava proibido de comer favas e ervilhas porque (diziam-nos) era alérgico. Teria eu uns dez anos quando me apercebi desse mistério. É claro que junto com os meus irmãos tinhamos o requinte de lhe cometer algumas confidências durante as refeições que com frequência partilhávamos. A sopa mesmo que fosse canja, sabia sempre a ervilhas ou jurávamos que a empregada não gostava dele e tinha misturado feijões de propósito. O almoço acabava com o primo a chorar e eu com uma bofetada ou de castigo merecido, que isto de ser o mais velho serve sempre de bode expiatório.
Há dois ou três meses apareceu já de madrugada um jovem brasileiro na urgência do hospital, muito prostrado e amarelo. Como o tom de pele não ajudava no diagnóstico de icterícia foi triado como tendo problemas oftalmológicos devido ao profundo amarelo dos olhos. As análises confirmavam contudo níveis de bilirrubina 14 vezes superiores ao normal e uma anemia aguda, embora ligeira. Após se descartarem várias hipóteses, a pista correcta residia no prato de favas comido ao jantar, um petisco desconhecido até então para o doente, já que na zona onde residia no Brasil não existem favas.
Em Portugal esta doença comhecida popularmente como favismo é rara; ocorre em menos de 0,5% da população. Apesar disso foi entre nós que surgiu a primeira publicação mundial sobre o tema.
Em 1843, era publicado numa pequena revista médica um pequeno comentário, que relatava a visita de um médico a uma quintarola em Cuba no Alentejo. Por lá existia um abegão (pastor) que insistia em comer favas contrariando as ordens da patroa. Esta sabia que ele ficaria prostrado e incapaz de trabalhar nos dias seguintes. Mas a gula era mais forte e o pastor lá comeu algumas ("poucas") favas só para ganhar o gosto. Dito e feito lá surgiu a prostração, tez amarella e muita indisposição requerendo muito descanso e água bebida com fartura. Uma semana depois estava como novo.
Tratámos o nosso inconsolável brasileiro da mesma maneira; com sopas (ou melhor água) e descanso. E não é que uma semana depois também estava como novo... Pudémos então dosear níveis muito baixos do enzima glicose-6-fostato-desidrogenase, confirmando o diagnóstico o que ajudará o doente mas também o seu fillho a evitar determinados medicamentos e petiscos.
Mas as curiosidades da história não terminam aqui. Decidimos apresentar este caso na reunião de serviço da última sexta-feira. Na preparação da discussão lembrei-me do primo Paulo e da sua intolerância às ervilhas. Recordava-me que um antigo mestre já reformado me contara que havia uma denominação especifica para a intolerância a este alimento. Na quinta feira ao fim da tarde liguei-lhe; o termo disse-me, era piselismo...
Agradecido, fui googlar a ver o que encontrava sobre piselismo.Estranhamente zero. Nada de nada. Tentei variantes pisilismo, pesilismo.... e nada...
Disse-me então esse amigo que encontraria o termo correcto numa edição do livro de Hematologia publicado pela Gulbenkian nos anos 70. Há mais de trinta anos, portanto.
Na sexta feira antes da sessão fui dar uma espreitadela no calhamaço. E lá estava: existe uma variante da anemia hemolítica semelhante ao favismo mas despoletada pelas ervilhas; denomina-se a doença... piselismo.
Dr Costa Santos 1 - Google zero...
Obrigado Francisco, finalmente tenho uma desculpa para não comer favas... sem ser o não gosto!
ResponderEliminarGrande abraço,
FM
Dito assim parece brincadeira! Mas pode ser fatal. E não são poucas as pessoas, principalmente no Alentejo que acabam por morrer. Eu apanhei um grande susto. Andei dois dias a comer favas cozidas, cruas, guisadas, enfim. Adoeci passados dois dias. A cabeça rebentava com dor, não tinha forças, os olhos amarelos,urina escura..(do que me lembro). Diagnóstico era hepatite. Mas os valores do sangue eram de uma grave anemia. E ninguém sabia o que fazer. Muito depois da crise é que o meu medico descobriu que era o favismo. Herdei do meu pai e passei a bela herança ao meu filho.
ResponderEliminarNesta alergia o mais grave são os medicamentos para combater as infecções urinárias e não há um que não conste da lista dos medicamentos proibidos (só me resta aguentar).
Cumprimentos
SC
Meu filho, agora com 13 anos é portador da deficiência G6PD e meu maior desafio é a alimentação. Pois pelo que pesquiso a anos sempre estou me deparando com algo novo. Ele sempre gostou de verduras, legumes. Evito frituras fora de casa devido ao óleo de soja, gordura hidrogenada e a saturação da mesma, corante azul, quinina, e misturar legumes cozidos de uma vez. Mas nunca fui neurótica com ele. Pois sempre acabava comendo algo e eu observo que em 24 ou 48horas lá está ele com a urina escura, dor abdominal leve, e sempre com problemas respiratório, pois tem rinite alérgica e sinusite desde os 6 meses de idade. Herança do ar de quem nasce em São Paulo. Eu tenho e meu ex-marido também tem rinite alérgica. No meu filho um resfriado ou uma febre evolui rapidamente para um quadro mais grave em 24 horas, tendo que repousar e tomar muito liquido e as vezes nebolizar e dura dias pra voltar ao normal. Mas indisposição é rara. Medicamentos sim, sou neurótica com eles e nunca fui fã de alopatia.
ResponderEliminarEntão reluto um pouco. Nesta semana está com uma crise de asma leve, a mais de 5 anos não precisava nebolizar com Berotec, mas a médica disse que era preciso. Estou tendo um trabalhão e se algum de vocês homens portador de G6PD, poder me ajudar eu ficarei grata. Pois trabalho fora até aos sábados e ele acaba comendo fora de casa. E ele é filho único e vai para intercâmbio logo, logo.