No seu livro de memórias, Garcia Marquez tem uma frase terrível. Diz algo como; a vida não é o que vivemos mas o que nos lembramos dela. Quando a li, fiquei chocado. As imagens que tenho do passado são muitas vezes neblinas indefinidas de que restaram sentimentos e ténues emoções. Uma infância feliz e despeocupada, uma adolescência com excessos mas que não deixaram mossas de maior, enfim... Impressões vagas muitas. A viagem no Santa Maria na ida para a Madeira, o calor aconchegante e a humidade no ar do Funchal, o mar omnipresente, o carinho da familia... Pormenores, poucos. Ainda por cima tenho dois irmãos mais novos e mentirosos que teimam que se lembram de coisas que ocorreram quando ainda não sabiam andar.
Hoje li uma versão muito mais optimista sobre esta dificuldade em segurar as imagens do tempo. Numa fotoreportagem a autora Sofia Cunha diz o seguinte: "se há característica que não tenho é uma boa memória - o que pode não ser mau, porque aquilo que um dia foi, é para mim qualquer coisa completamente diferente ao fim de uns tempos. Transforma-se normalmente em algo a meio caminho entre o que efectivamente foi e o que eu gostava que tivesse sido. Em última análise, transforma-se naquilo que eu mais tarde fantasiei ter acontecido.".
Deve ser por isso que passei a andar com máquina fotográfica sempre à mão. Fixando o momento para mais tarde recordar.