sábado, 17 de outubro de 2009

Humor à moda de Bratislava






















Estive de fugida em Bratislava. Diziam que pouco havia que ver. Uma cidade que esteve quase sempre sob o jugo de outros, longe da riqueza de Praga, Viena ou Budapeste.

Cláudio Magris em Danúbio cita o escritor eslovaco Minac que em 1968 publicou o livro Onde estão os Nossos Castelos. Não temos história, diz Minac, quando esta última é feita só de reis, imperadores, duques, principes, vitórias, conquistas, violências, rapinas.

Parece que os castelos espalhados pela pequena Eslováquia fazem parte de outra história desse país, alheia ao povo eslovaco. De facto eram os senhores húngaros que viviam nos castelos e nas casas senhoriais enquanto os eslovacos, proibidos de estudar e falar o seu idioma viviam em choupanas ou casas de madeira simples. Diz Magris que "durante séculos os Eslovacos foram um povo ignorado, o tecido e o substrato obscuro do seu próprio país".

Mas agora Bratislava é uma terra em ebulição. Afastados os comunistas os eslovacos tentam por fim decidir o seu destino sozinhos. A cidade reflecte bem o passado de conflito e domínio sucessivo extrangeiro que sofreu. E isso confere-lhe História. Carregada de contrastes, a cidade tem no seu centro várias estátuas em que o humor transparece. Na fase de reconstrução após a última guerra, o presidente da câmara pediu a artistas que criassem obras optimistas, em que o humor estivesse presente. O trabalhador que repousa espreitando desde os esgotos é um exemplo de como a arte pode mudar o estado de alma de uma cidade.

Favismo, o primo P. e o Dr Costa Santos


Um primo nosso tem uma doença estranha; um pouco mais novo que eu, estava proibido de comer favas e ervilhas porque (diziam-nos) era alérgico. Teria eu uns dez anos quando me apercebi desse mistério. É claro que junto com os meus irmãos tinhamos o requinte de lhe cometer algumas confidências durante as refeições que com frequência partilhávamos. A sopa mesmo que fosse canja, sabia sempre a ervilhas ou jurávamos que a empregada não gostava dele e tinha misturado feijões de propósito. O almoço acabava com o primo a chorar e eu com uma bofetada ou de castigo merecido, que isto de ser o mais velho serve sempre de bode expiatório.



Há dois ou três meses apareceu já de madrugada um jovem brasileiro na urgência do hospital, muito prostrado e amarelo. Como o tom de pele não ajudava no diagnóstico de icterícia foi triado como tendo problemas oftalmológicos devido ao profundo amarelo dos olhos. As análises confirmavam contudo níveis de bilirrubina 14 vezes superiores ao normal e uma anemia aguda, embora ligeira. Após se descartarem várias hipóteses, a pista correcta residia no prato de favas comido ao jantar, um petisco desconhecido até então para o doente, já que na zona onde residia no Brasil não existem favas.


Em Portugal esta doença comhecida popularmente como favismo é rara; ocorre em menos de 0,5% da população. Apesar disso foi entre nós que surgiu a primeira publicação mundial sobre o tema.

Em 1843, era publicado numa pequena revista médica um pequeno comentário, que relatava a visita de um médico a uma quintarola em Cuba no Alentejo. Por lá existia um abegão (pastor) que insistia em comer favas contrariando as ordens da patroa. Esta sabia que ele ficaria prostrado e incapaz de trabalhar nos dias seguintes. Mas a gula era mais forte e o pastor lá comeu algumas ("poucas") favas só para ganhar o gosto. Dito e feito lá surgiu a prostração, tez amarella e muita indisposição requerendo muito descanso e água bebida com fartura. Uma semana depois estava como novo.

Tratámos o nosso inconsolável brasileiro da mesma maneira; com sopas (ou melhor água) e descanso. E não é que uma semana depois também estava como novo... Pudémos então dosear níveis muito baixos do enzima glicose-6-fostato-desidrogenase, confirmando o diagnóstico o que ajudará o doente mas também o seu fillho a evitar determinados medicamentos e petiscos.

Mas as curiosidades da história não terminam aqui. Decidimos apresentar este caso na reunião de serviço da última sexta-feira. Na preparação da discussão lembrei-me do primo Paulo e da sua intolerância às ervilhas. Recordava-me que um antigo mestre já reformado me contara que havia uma denominação especifica para a intolerância a este alimento. Na quinta feira ao fim da tarde liguei-lhe; o termo disse-me, era piselismo...

Agradecido, fui googlar a ver o que encontrava sobre piselismo.Estranhamente zero. Nada de nada. Tentei variantes pisilismo, pesilismo.... e nada...

Disse-me então esse amigo que encontraria o termo correcto numa edição do livro de Hematologia publicado pela Gulbenkian nos anos 70. Há mais de trinta anos, portanto.

Na sexta feira antes da sessão fui dar uma espreitadela no calhamaço. E lá estava: existe uma variante da anemia hemolítica semelhante ao favismo mas despoletada pelas ervilhas; denomina-se a doença... piselismo.

Dr Costa Santos 1 - Google zero...

sábado, 10 de outubro de 2009

Viena




O país
Foi sede de um grande império...
Foi invadido por mouros e godos... e até já foi dominado pelos espanhóis...
Os estrangeiros não conhecem marcas próprias do país...
Depende muito da economia do vizinho do lado
A selecção de futebol anda pelas ruas da amargura

A cidade
Repleta de história e monumentos
Um rio fantástico
Uma música que marca a imagem da cidade
Sempre em obras

Muitas semelhanças connosco.




domingo, 4 de outubro de 2009

A Vénus de Willendorf



Quando miúdo sonhava por vezes acordar num mundo primitivo rodeado de perigosos tigres de dentes de sabre, mamutes e afins. As mulheres primitivas com as quais acabava por ter sempre sucesso, inspiravam-se na figura da Raquel Welch no filme dos anos 60, One Million Years BC, que aliás não ficou para a história.

Na semana passada estive em Viena. Num escuro recanto do Museu de História Natural encontra-se uma pequena estatueta. Nas informações disponíveis salienta-se que será provavelmente a única mulher com um indíce de massa corporal acima de 50 que é admirada em todo o mundo (hoje em dia considerar-se-ia como obesidade mórbida). Para esse indíce conta muito a sua estatura; apenas 11 cm! .

A estatueta foi encontrada nas obras de construção de caminho de ferro na região de Willendorf na Áustria em e estima-se que tenha cerca de 25000 anos.

O facto nessa região se terem encontrado outros achados paleolíticos fez com que o museu de História Natural enviasse peritos para controlar o decorrer das obras. Isto em 1908...

Quando um trabalhador encontrou no leito de um rio uma figura com contornos vagamente familiares mostrou-o ao perito (Josef Szombathy) que desvalorizou o achado dizendo tratar-se apenas de uma pedra com forma humana, mas que apesar de tudo tinha um interesse relativo e ficariam com ela. A figura corada de ocre vermelho era de pedra calcárea ausente na zona e Szombathy rapidamente se apercebeu de que estava perante uma descoberta que podia mudar o seu futuro. Pediu um aumento de ordenado de cerca de 10 vezes o que ganhava e então cedeu a estátua ao museu.

A Vénus de Willendorf poderá ter sido um amuleto, usado como símbolo da fertilidade... Ficou na história. Temo é que daqui a mil anos ninguém se lembre da Raquel Welch.